Falar sobre mulheres na arquitetura é contar uma história de talento, resistência e transformação do espaço brasileiro.
E quando a gente amplia esse olhar para diferentes regiões, fica ainda mais claro que a contribuição feminina não está restrita a um único eixo.
Ela aparece em museus, escolas, paisagens urbanas, edifícios públicos, patrimônio histórico e também nas grandes decisões sobre cidade, cultura e infraestrutura.
Hoje, discutir mulheres na arquitetura é também olhar para um cenário profissional em que elas já são maioria em arquitetura e urbanismo no Brasil, segundo levantamentos do CAU/BR.
Neste artigo, vamos conhecer nomes que ajudam a entender por que mulheres na arquitetura é um tema essencial a ser discutido.
História das mulheres na arquitetura brasileira
Isadora Modesti
Coordenadora de Operações | Blocks®
A história das mulheres na arquitetura brasileira começa a ganhar registro mais claro no fim do século XIX, quando o acesso feminino ao ensino superior passa a ser viabilizado.
Esse fator é extremamente importante porque abriu caminho, nas décadas seguintes, para a entrada de mulheres em cursos até então ocupados quase exclusivamente por homens.
A pioneira na arquitetura, segundo o CAU/BR, se chama Arinda da Cruz Sobral. Nascida em 4 de agosto de 1883, ingressou no curso de arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes, em 1907.
Sendo a única mulher na turma, teve seu título registrado em 1914. O Jornal “O Paiz” já anunciava sua trajetória com a manchete “Futura architecta”.
Não podemos negar que esse é um marco muito importante porque mostra que a presença feminina na arquitetura brasileira não é recente.
Ao longo do século XX, a participação feminina se ampliou e se diversificou em áreas como projetos, urbanismo, patrimônio, paisagismo e gestão pública.
Mulheres na arquitetura: conheça quem marcou a história!
Quando falamos em mulheres na arquitetura, é bem comum lembrarmos de Lina Bo Bardi e outros nomes.
Mas, na verdade, existe um conjunto rico de profissionais por todas as regiões do Brasil que marcaram a história. Vamos conhecê-las?
Rosa Grena Kliass (Norte)
Arraste para o lado e conheça suas obras → | Créditos: Internet
Embora seja paulista, Rosa teve uma atuação constante em cidades como Belém (PA), Macapá (AP) e Porto Velho (RO).
O CAU/BR considera Rosa como pioneira na arquitetura paisagística no Brasil e ressalta suas obras em grande escala no Pará e no Amapá, especialmente no início dos anos 2000.
Entre as obras que marcaram sua atuação no Norte, estão:
- Estação das Docas (Belém, PA): em que o projeto paisagístico contribui para “abrir” a cidade para o Rio Guamá.
- Parque Mangal das Garças (Belém, PA): que também é uma obra importante para a arquiteta, com preservação do aningal e criação de percursos, pontes e ambientes que valorizam a paisagem amazônica.
- Fortaleza de São José (Macapá, AP): mostra um trabalho de integração entre rio, cidade e fortaleza, com anfiteatro, passeio beira-rio e tratamento paisagístico voltado à valorização do monumento histórico em seu entorno.
- Parque Memorial Madeira Mamoré (Porto Velho, RO): em coautoria com Barbieri e Gorski, propõe reconectar a cidade ao rio Madeira.
Lygia Fernandes (Nordeste)
Arraste para o lado e conheça suas obras → | Créditos: Docomomo Brasil
Nem todos a conhecem, mas Lygia Fernandes foi uma arquiteta brasileira modernista da década de 30.
Nascida em 1919, em São Luís, Lygia ingressou na Escola Nacional de Belas Artes (ENBA), e se formou em arquitetura em seis anos. Suas principais obras são:
- Residência José Lyra (Maceió, 1952): construída entre 1952 e 1954, aparece no artigo como uma consolidação da atuação de Lygia no Nordeste.
- Residência Paulo Netto (Maceió, 1952): ganhou visibilidade no livro Modern Architecture in Brazil, de Henrique Mindlin (1956).
Segundo uma pesquisa realizada pela Docomomo Brasil, suas obras tiveram destaque nacional e projeção internacional, mas tiveram pouca visibilidade na historiografia mais tradicional.
Doramélia Marra Motta (Centro-Oeste)
Arraste para o lado e conheça suas obras → | Créditos: Internet
No Centro-Oeste, mais especificamente em Brasília, Doramélia Marra da Motta se destaca pela criação de um dos conjuntos comerciais mais singulares do Plano Piloto: a Babilônia do Norte.
Em um artigo publicado pelo Congresso em Foco, foi registrado que, em 1975, Doramélia propôs um novo modelo de área comercial centrado na convivência social, em crítica à escala monumental e à lógica excessivamente voltada ao automóvel.
Seu projeto se tornou uma referência justamente por inverter a lógica da área comercial típica de Brasília.
Em vez de priorizar as fachadas para as vias de tráfego, a proposta volta as fachadas principais para áreas verdes e para a superquadra residencial.
Por um tempo, o espaço ficou esquecido por comerciantes e moradores de Brasília, mas hoje o cenário mudou, sendo um dos principais pontos de encontro dos brasilienses.
O projeto é tão querido pelos brasilienses que, em 2016, o cenário foi pauta de um curta-metragem e foi apelidada de “Babilônia Norte”. Veja:
Carla Juaçaba (Sudeste)
Arraste para o lado e conheça suas obras → | Créditos: Internet
Quando o assunto é arquitetura contemporânea brasileira, Carla Juaçaba aparece como uma referência importante no Sudeste.
Com atuação ligada ao Rio de Janeiro, ela construiu uma trajetória marcada por projetos em que a estrutura, a leveza e a paisagem dialogam de forma precisa.
Entre suas obras mais conhecidas, a Casa Rio Bonito (RJ, 2005) costuma ser lembrada como um marco da sua linguagem.
Outra obra de destaque é o Pavilhão Humanidade 2012 (Rio de Janeiro, 2012), desenvolvido para a Rio+20, que ganhou projeção pelo impacto espacial e pela presença estrutural.
Já em escala internacional, a Capela do Vaticano na Bienal de Veneza (2018) reforça o alcance de sua produção e a inserção da arquitetura brasileira contemporânea em circuitos globais.
Olenka Freire Gréve (Sul)
Arraste para o lado e conheça suas obras → | Créditos: Internet
Representando o Sul, temos Olenka Freire Gréve, pioneira na atuação técnica em programas complexos, como saúde e edifícios públicos, não apenas residências.
Nascida em Rio Grande (RS), em 31 de agosto de 1914, concluiu o curso de arquitetura em 1939 e ingressou em 1942 na Divisão de Obras do Ministério da Educação e Saúde, sendo a única mulher da equipe naquele momento.
A própria Base Arch destaca sua participação em escolas, hospitais, maternidades, entre outros, com ênfase no trabalho desenvolvido no Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz.
Suas obras principais são:
- Pavilhão da Patologia;
- Maternidade do Instituto Fernandes Figueira;
- Hospitais Gerais de Aracaju;
- Pavilhões da Administração e Almirante Augusto Rademaker.
Olenka, provavelmente, se enquadra na arquitetura moderna funcional, com forte vínculo à arquitetura institucional e hospitalar.
Bônus: Mulheres na engenharia: pioneira e lideranças que transformaram o Brasil!
Quando o assunto é mulheres da arquitetura, não poderíamos deixar de falar também de mulheres da engenharia civil, pois ambas as disciplinas andam juntas.
O mercado profissional da engenharia civil é majoritariamente composto por homens, e as mulheres acabam passando “despercebidas”.
No entanto, isso não significa que não haja mulheres que tenham marcado a história da engenharia brasileira. Algumas das principais são:
- Marília Carvalho de Melo: representa uma engenharia voltada a sistemas complexos e impacto coletivo, com atuação em saneamento, meio ambiente e gestão de recursos hídricos. Sua trajetória se destaca pela interface entre técnica e gestão pública, especialmente em temas estratégicos como água, infraestrutura e sustentabilidade
- Carmen Portinho: foi uma das grandes pioneiras da engenharia nacional e uma referência histórica no urbanismo brasileiro. Sua importância vai além do pioneirismo cronológico, atuando na modernização do pensamento urbano, na defesa da habitação popular e na ampliação da participação feminina em espaços técnicos e institucionais. Também teve papel marcante como feminista e sufragista, unindo atuação profissional e transformação social.
- Edwigs Maria Becker: conhecida como a primeira mulher a se formar em engenharia no Brasil, seu legado é fundamental para entender a presença feminina na engenharia.
- Enedina Alves Marques: ocupa um lugar central na história da engenharia brasileira por ter sido a primeira mulher negra engenheira do país. Sua trajetória une excelência técnica, atuação em obras de grande porte e força simbólica na luta contra o racismo e a exclusão em profissões técnicas.
Olhar para essas trajetórias deixa uma coisa evidente: a engenharia brasileira também foi transformada por mulheres que abriram caminhos em contextos de pouca representação, ocuparam espaços estratégicos e deixaram impacto real na engenharia.
Conclusão
Entender a trajetória de mulheres na arquitetura e também na engenharia, é saber que a história não foi apenas construída por homens. As mulheres sempre estiveram presentes.
Ou seja, as cidades brasileiras carregam marcas deixadas por elas. Essas marcas aparecem em todos os lugares, sejam edifícios, casas, hospitais ou espaços públicos.
O que elas fizeram fez parte e ainda faz parte da vida de quem mora e circula pelas ruas. Dar visibilidade a essas histórias significa reforçar a presença das mulheres na arquitetura.
Então, não se esqueça que elas sempre estiveram no cenário arquitetônico e sempre vão estar. Compartilhe este artigo com alguém e espalhe as histórias dessas mulheres que foram e são tão importantes para a arquitetura.
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