Se você é um admirador de arquitetura modernista, com certeza já deve ter escutado falar sobre Paulo Mendes da Rocha — uma das figuras mais importantes do Brutalismo Paulista.
Autor de projetos muito importantes na história, como o Pavilhão Oficial do Brasil na Expo 70, o Museu Brasileiro da Escultura (MuBE) e o Ginásio de Esportes do Clube Atlético Paulistano, Mendes foi um dos arquitetos mais influentes do século XX.
O arquiteto fez parte da geração modernista liderada por Vilanova Artigas, consolidando sua reputação com projetos arrojados em concreto aparente, como, por exemplo, a Casa Butantã.
Ao longo da sua carreira, Paulo recebeu inúmeros prêmios importantes, incluindo o Prêmio Pritzker em 2006, considerado o “Nobel” da arquitetura.
Neste artigo, vamos conversar sobre a história desse mestre do brutalismo, explorar suas obras mais icônicas e entender que influências ele deixou para quem estuda o modernismo.
Quem foi Paulo Mendes da Rocha?
Paulo Mendes da Rocha foi muito mais do que um arquiteto, foi um pensador da cidade e um professor que desafiou ideias convencionais.
Nascido em Vitória (ES), em 1928, formou-se em arquitetura em São Paulo nos anos 1950 e logo se destacou ao vencer, com apenas 29 anos, o concurso para projetar o Ginásio do Clube Atlético Paulistano.
Esse feito inicial, já rendeu a ele premiações e também mostrou sua inclinação por estruturas mais ousadas.
Além disso, Mendes da Rocha fazia parte da chamada ‘Escola Paulista’ de arquitetura, conhecida pelo uso de concreto aparente e linhas marcantes, seguindo os passos do mentor João Vilanova Artigas.
Ao longo das décadas seguintes, Paulo Mendes da Rocha conciliou a prática profissional com a vida acadêmica, lecionando na Universidade de São Paulo (USP).
Na época, o arquiteto foi cassado e impedido de dar aulas durante a ditadura militar, mas manteve-se engajado em debates sobre o papel social da arquitetura, como Lina Bo Bardi.
Paulo Mendes da Rocha
1928 – 2021
“Criar, para mim, nunca foi fácil como alguns querem acreditar. Ao contrário. Quando ganhamos alguma velocidade no projetar, não quer dizer que é fácil. É que aquilo tem sido difícil nos últimos anos e já sabemos, já vivemos aquilo. Assim, convocamos o que presumimos saber. Não gosto da ideia de inspiração, parece que o desenho veio do além.
O que é arquitetura brutalista?
Para entender profundamente a obra de Paulo Mendes da Rocha, é imprescindível compreender a arquitetura brutalista.
Apesar do termo curioso, não tem a ver com “brutalidade” no sentido comum da palavra. Na verdade, o termo Brutalismo vem do francês ‘béton brut’, que significa “concreto bruto” ou “cru”.
E isso já dá uma pista sobre o movimento: a arquitetura brutalista é caracterizada pelo uso expressivo do concreto aparente, sem coberturas ou acabamentos que escondam sua textura.
O brutalismo ganhou força entre as décadas de 1950 e 1970, como uma vertente do movimento moderno e, até hoje, é bastante referenciado em projetos arquitetônicos contemporâneos.
As características do brutalismo é que as estruturas das obras apresentam formas geométricas simples e imponentes, com muitos blocos retangulares, linhas retas e um aspecto geralmente monumental.
A ideia do brutalismo é que a beleza esteja na própria construção, na funcionalidade e na estrutura dos elementos. Então, quase não há elementos supérfluos.
Qual é a principal obra de Paulo Mendes da Rocha?
Créditos: Nelson Kon/Divulgação
Quando falamos em Paulo Mendes da Rocha, fica até difícil escolher uma obra principal, pois o arquiteto possui um portfólio rico em projetos.
No entanto, muitos críticos e historiadores concordam que a Casa Butantã (a casa que projetou para sua própria família) ocupa um lugar especial.
Não é todo dia que a residência de um arquiteto é apontada como sua obra-prima, mas neste sentido, a Casa Butantã é quase um manifesto de Mendes da Rocha sobre uma nova maneira de morar.
Construída em concreto aparente e com formas extremamente simples, ela apresenta um design radicalmente aberto.
Os espaços internos se conectam e a divisão entre o que é privado e o que é comum se torna difusa. Esse conceito de integração foi um dos grandes trunfos da casa. Não à toa, o júri do prêmio Pritzker mencionou essa ideia ao premiá-la décadas depois.
Na construção da casa, Paulo dispensou qualquer acabamento. A casa não tem pintura nas paredes, o concreto bruto é a estrela do projeto.
A casa foi construída em 1964 e o arquiteto viveu ali entre os anos 70 e 90 com sua família, mas logo saiu quando a configuração da família mudou (os filhos cresceram).
Atualmente, a Casa Butantã continua sendo propriedade da família de Paulo Mendes da Rocha, mas não funciona como residência nem como museu aberto ao público.
Em geral, é fechado para visitação comum, mas eventualmente é usado para pesquisas acadêmicas, produções fotográficas, documentários ou visitas guiadas restritas.
Paulo Mendes da Rocha obras: conheça as principais!
Ao longo de sua carreira, Paulo Mendes da Rocha projetou museus, edifícios institucionais, casas e até mobiliários, como a Poltrona Paulistano.
Para você conhecer mais a fundo sobre suas obras, a seguir, vamos passar por algumas de suas principais.
Museu Brasileiro da Escultura (1986) - MuBE
Créditos: Nelson Kon/Divulgação
Em São Paulo, no coração dos Jardins, está o Museu Brasileiro da Escultura, mais conhecido como MuBE.
Projetado por Paulo em 1986, e concluído em 1995, o MuBE também é citado como uma das obras-primas do arquiteto.
Curiosamente, o conceito por trás dele era “não ter prédio nenhum”. A ideia era criar um museu que fosse também uma praça pública, preservando o máximo da área verde. Por isso, grande parte do MuBE é subterrâneo.
Acima da terra, o que se vê é um amplo jardim de esculturas e uma imensa viga de concreto em forma de pórtico que cobra parte desse espaço aberto.
O paisagismo é assinado pelo famoso Roberto Burle Marx, integrando-se perfeitamente com o estilo brutalista de Mendes da Rocha.
Capela de São Pedro
A Capela de São Pedro, inaugurada em 1987 no terreno do Palácio Boa Vista, é um pequeno grande exemplo do talento do arquiteto.
Ao chegar, a primeira impressão é impactante: uma capela minimalista, com paredes de vidro e uma enorme laje de concreto plano servindo de teto.
As laterais são fechadas por caixilhos de vidro, o que faz com que quase não se note a estrutura quando a luz e as sombras se combinam.
Dentro da capela, Mendes da Rocha criou um ambiente contemplativo único. O piso do salão principal é coberto por uma fina lâmina de água (um espelho d’água) contínuo.
Pinacoteca de São Paulo
Se a Casa Butantã foi a obra mais pessoal de Paulo, a renovação da Pinacoteca do Estado de São Paulo foi talvez a mais emblemática em termos de patrimônio histórico.
A Pinacoteca é um museu de arte instalado em um prédio centenário de tijolos aparentes, construído em 1900.
Nos anos 1990, Mendes da Rocha liderou uma reforma completa para atualizar o museu e adequá-lo aos novos tempos, sem descaracterizar o edifício original.
O resultado, entregue em 1998, é considerado um caso exemplar de intervenção contemporânea em prédio histórico, tanto que rendeu a ele o prêmio Mies van der Rohe de arquitetura latino-americana em 2000.
Casa Gerassi (1989)
No fim da década de 1980, Paulo Mendes da Rocha projetou várias casas urbanas, e a Casa Gerassi é uma das mais conhecidas desse período.
Construída em São Paulo em torno de 1989, a Casa Gerassi é significado direto do que poderíamos chamar de “brutalismo doméstico”.
Com fachada em concreto aparente e geometria simples, ela mostra como os princípios de Mendes da Rocha se aplicam também na escala da casa de família.
Uma curiosidade interessante é que o próprio arquiteto selecionou o projeto para seu livro retrospectivo no 2000. Ou seja, isso mostra o quanto essa residência foi significativa no conjunto de obras dele.
Como conceito, a Casa Gerassi lembra a funcionalidade da Casa Butantã, mas adaptada a um lote urbano típico. Espaços integrados, estrutura aparente e ausência de elementos decorativos gratuitos marcam o projeto.
Ginásio do Clube Atlético Paulistano (1961)
Vamos voltar um pouco no tempo para falar do Ginásio do Clube Paulistano, em São Paulo.
Concebido no final dos anos 1950, em parceria com o engenheiro João De Gennaro, esse ginásio poliesportivo foi um fenômeno arquitetônico.
Paulo Mendes da Rocha projetou um espaço interno livre de apoios no meio, perfeito para a quadra e arquibancadas, e uma aparência super moderna para a época.
Não é à toa que, em 1961, quando ficou pronto, o ginásio do Paulistano ganhou prêmio na Bienal Internacional de São Paulo e virou uma grande referência para o mundo da arquitetura.
É válido lembrar que essa criação foi entregue no final dos anos 50. Então, Paulo só tinha 29 anos e já demonstrava sua visão inovadora sobre a arquitetura.
Edifício Guaimbê (1965)
No bairro dos Jardins, em São Paulo, existe um prédio relativamente discreto em altura, mas notável no design: o Edifício Guaimbê.
Concluído em meados da década de 1960, o edifício foi projetado por Paulo Mendes da Rocha com João De Gennaro e é frequentemente citado como um marco da arquitetura brutalista paulistana.
Sua fachada estreita é inteiramente de concreto aparente e apresenta uma estrutura peculiar, com andares modulados por elementos pré-moldados em concreto.
Em cada pavimento, podemos ver uma sequência repetitiva composta por um toldo curvo de concreto na parte superior da janela principal e, logo abaixo, uma floreira triangular de concreto, ambas avançando um pouco para fora da fachada.
Em plena São Paulo dos anos 60, dominada por prédios envidraçados “caixa” ou pelo estilo moderno internacional, o Guaimbê se destaca por essa pegada brutalista humanizada.
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Bônus: Casa da Montanha
Créditos: GNT/Casa Brasileira
Por fim, não poderíamos deixar de mencionar a obra mais recente, mas menos conhecida, de Paulo: a Casa da Montanha.
É uma casa de campo em São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira, projetada por Paulo Mendes da Rocha em parceria com o arquiteto Eduardo Colonelli.
Inicialmente, Paulo teve a ideia de fazer uma torre alta no terreno, mas a cliente não gostou muito da proposta.
Então, ele partiu de outra ideia: desenhou um casarão longitudinal com telhado de duas águas, elevado no chão por pilares — algo que lembra bastante a famosa Casa de Vidro de Lina Bo Bardi, inclusive no uso de pilotis para adaptar à topografia.
A decisão de levantar a casa do solo não foi apenas estética, mas também prática, pois na região é comum erguer construções devido ao terreno acidentado e aos cursos de água.
A estrutura da Casa da Montanha é exposta e o telhado em duas águas dão um ar rústico-moderno.
Dentro, o coração da morada está na cozinha com fogão a lenha, considerada pelo próprio Mendes da Rocha o ponto central de convivência.
Ele chegou a desenhar uma bancada especial para que as pessoas pudessem se sentar em volta do fogão e se servirem diretamente da panela.
Não podemos deixar de falar da janela do banheiro que é totalmente inovadora que, em vez de ser voltada para o horizonte, é direcionada para o solo.
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Paulo Mendes da Rocha nos mostrou que a arquitetura vai muito além de erguer prédios, é uma forma de transformar o modo como vivemos e interagimos com o espaço.
Suas obras, marcadas pelo concreto aparente e pelos gestos estruturais audaciosos, carregam em si uma visão humanista.
O arquiteto Mendes da Rocha deixou para nós um portfólio impecável da arquitetura brutalista brasileira — obras que, para sempre, serão atemporais.
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